5 de abril de 2011

Dupla tristeza

             O dia 29 de março de 2011 ficará marcado para sempre em minha memória, pela perda de duas criaturas que muito admirei em vida.
            Tomei conhecimento da primeira grande perda, logo no início da tarde, quando soube da morte do ex- vice-presidente da República José Alencar. Mineiro de Muriaé, homem de origem humilde, José Alencar tornou-se um dos maiores empresários deste país e soube valorizar a vida como poucos.
            Empresário bem sucedido, chefe de família e homem público. Em todos os segmentos de sua vida foi sempre um cidadão exemplar. Por isso, José Alencar conquistou o respeito e a admiração de todos, indistintamente, adversários ou não.           


            A luta de mais de 13 anos contra vários tipos de câncer, que comoveu a mim e ao país inteiro, chegou ao fim. Foi o último capítulo em que a morte, velha bruxa, levou do nosso meio este grande brasileiro. Um bravo o ex-vice-presidente José Alencar! Lutou contra a doença até não ter mais forças para lutar, sem nunca ter deixado de acreditar na vida.
            Como homem público nos deixou o exemplo de como deve se comportar um político, no exercício de um mandato. Exerceu o cargo que o povo lhe deu através do voto, uma procuração em branco, com amplos poderes, assinada pela maioria dos eleitores deste país. Lamentavelmente, não pude me incluir entre estes eleitores, sou um anti-petista convicto e jamais votaria no Lula, ou em qualquer outro candidato do Partido dos Trabalhadores.
            Com citações como: “Não tenho medo da morte, tenho medo da desonra” e “Nunca omiti nada, mesmo porque o homem público não é dono de si. Ele tem que ser transparente mesmo. Provavelmente isso tenha criado esse mito de força. Não sou mais forte que ninguém”, José Alencar soube defender suas convicções tomando posições claras diante daquilo que não concordava. O exemplo disto foi a sua luta, durante os 8 anos como vice-presidente da República, contra os escorchantes juros bancários aplicados no país, com o aval do governo que ele representava. Por mais de uma vez enfrentou a equipe econômica do seu governo, para atacar aquilo que ele, como empresário bem sucedido, entendia ser uma exploração do capital diante do trabalho.
           Que belo exemplo de vida nos deixa este homem. Descanse em paz José Alencar Gomes da Silva.
           Da outra grande perda, só tomei conhecimento nesta manhã de quarta feira. Morreu Rudi Armin Petry, um dos maiores dirigentes da história centenária do meu Grêmio.
            Na condição de cônsul do Grêmio, em muitas reuniões consulares, convivi com seu Petry, como era carinhosamente chamado pela torcida tricolor. Em muitas destas reuniões, em tempos de vacas magras ou em tempos de grandes conquistas, lá estava o dirigente que dedicou a sua vida pelo clube. Sempre com a serenidade de “venerável mestre”, pedindo calma, incentivando a todos na hora ruim, ou comemorando com alegria incomum um grande feito do seu Grêmio, clube que ele soube amar como poucos. 

            Ainda soa nos meus ouvidos o modo sereno como falava o grande dirigente Rudi Armin Petry. Sempre, ao iniciar uma entrevista, cumprimentava a todos e, em “especial a torcida tricolor”.
            O seu Grêmio vai continuar a trajetória de vitórias, vai alçar vôos ainda maiores, porém jamais será o mesmo, pois não poderá contar com o homem, que foi sempre chamado para promover a paz e a união em torno desta paixão chamada “Grêmio de Foot-Ball Porto Alegrense”.
           A cada vitória do nosso Grêmio, seu Petry, hei de me lembrar do senhor, do seu gremismo, tendo sempre a certeza de que, onde quer que o senhor esteja, um sorriso de incontida alegria irá brotar do seu rosto. O senhor ocupou todos os cargos de direção no clube. Foi Presidente vitorioso. Mas, uma conquista sua faço questão de lembrar nesta hora da sua partida deste plano terrestre: a admiração e o respeito que o senhor teve em vida por parte do nosso maior adversário, o Sport Clube Internacional.  Basta lembrar que o maior dirigente deste clube, Fernando Carvalho, lembrando-se de um episódio emblemático vivido por ele dentro do Internacional, fez uso da expressão, “assunto de economia interna”, que era usada pelo senhor para preservar a imagem pública do Grêmio diante de questões menores. Espelhando-se na sua pessoa, Fernando Carvalho usou a mesma expressão. 

Ao ficar sabendo da morte do seu mestre, Carvalho chorou. Chorou porque Petry era o seu modelo de dirigente. Disse Carvalho, publicamente: “O perfil, o modelo, a inspiração para se mover pelos caminhos do futebol busco sempre no seu Petry”.
            Morreu um grande dirigente e com ele um pedaço do Grêmio também morreu. Junto com a morte do grande gremista morre uma enorme porção da gentileza e da grandeza do futebol do Rio Grande do Sul. Bandeiras a meio mastro nos Estádios Olímpico e Beira Rio, numa homenagem muito bonita ao homem que soube ser admirado e respeitado acima das rivalidades do futebol.
Descanse em paz Rudi Armin Petry.

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