Passado o episódio do cancelamento do “show pirotécnico” da virada do ano, na praia de Capão da Canoa, vale tecer alguns comentários sobre ele.
O espetáculo foi cancelado pela Patrulha Ambiental da Brigada Militar devidamente amparada na lei, porque a bateria de fogos estava instalada próxima à residência de uma família de corujas, nas dunas da referida praia.
Em primeiro lugar, entendo que erraram todos: Os organizadores do evento e os vigilantes ambientalistas de plantão. Excluo do erro a família de corujas; pai, mãe e seus quatro filhos, pois estes já ocupavam o local quando os artefatos foram montados nas proximidades do seu lar.
Os ambientalistas, que na maioria são uns chatos, aproveitaram o episódio para viver o seu momento de glória, afinal de contas, entrevistas em rádios e jornais de grande circulação garantem a luz dos holofotes. E eles realmente foram o centro das atenções.
Os organizadores, frustrados pela não realização do evento, ficaram indignados com os acontecimentos, pois a prefeitura de Capão da Canoa investiu alguns milhares de reais para brindar os contribuintes com a queima de fogos, que teria a duração de alguns poucos minutos. Sabemos que para político qualquer motivo é desculpa para usar o palanque, imaginemos então, como ficou a cara do senhor. Prefeito Municipal e sua equipe, ao verem frustrada a sua pirotecnia.
Sabemos também que este é um ano eleitoral e que neste período toda a oportunidade de aparecer politicamente deve ser levada em conta e não pode ser desperdiçada de maneira nenhuma.
No domingo passado, 06 de janeiro, saí pela cidade de Porto Alegre a observar como vivem as pessoas moradoras de rua da capital do Estado. Andei muito pelas ruas vazias, passei por pontes, viadutos e becos que em dias normais, em função do movimento da metrópole, não é possível olhar mais atentamente. E sabem, aos poucos fui tomado por imensa tristeza. Estava só e por esse motivo não pude dividir com ninguém as chocantes cenas que presenciei. Vi famílias inteiras vivendo,ou melhor... sobrevivendo miseravelmente numa cidade abandonada pelos frustrados veranistas que não puderam assistir os fogos em Capão da Canoa. Estão estes veranistas se deliciando com o belo início de verão, muita sombra, praia e água fresca. Não encontrei ambientalistas preocupados com as “corujas humanas” de olhos arregalados que vi embaixo dos viadutos, pontes e ruas da cidade. Essas criaturas sequer sabem que existem ambientalistas, veranistas ou prefeitos fogueteiros. A vida para estes infelizes seres é sempre igual: inverno ou verão. É miséria pura e nada mais. Os olhos arregalados, principalmente das crianças, são de pavor do mundo que os cerca, as incertezas do dia seguinte os tornam como animais acuados pela sociedade, que de forma hipócrita finge não tomar conhecimento da sua existência e, que muito diferem das hoje protegidas corujas da praia de Capão da Canoa, uma vez que estas passaram a ter vigilância 24 horas montada pela Brigada Militar e com toda a certeza acompanhada atentamente pelos senhores ambientalistas.
As “corujas humanas” da cidade, abandonadas à própria sorte, vivem com algumas migalhas doadas pelas poucas pessoas que ainda carregam na alma a solidariedade para com seus semelhantes. Ah, se pudessem os moradores de rua contar com um prefeito e todo seu estado maior, ou mesmo com os ambientalistas de plantão para ajudá-los e protegê-los a qualquer hora do dia ou da noite! Caso esses desamparados tivessem o mau sentimento da inveja, estariam hoje invejando a família de corujas moradoras de Capão da Canoa, que como eles moram em tocas, mas que agora estão protegidas e amparadas pelo Estado. E as “corujas humanas” quando terão alguma espécie de amparo por parte dos governantes?
O mais lamentável de tudo é que a nossa solidariedade, seres humanos que somos e que juramos ter alma, hipocritamente insiste em ignorar o drama dessas pessoas, nossos irmãos de acordo com a Lei do Criador. Para os políticos, veranistas e ambientalistas eles não passam de mendigos que incomodam pedindo algo para comer.
Para sempre ficará marcado em mim, o domingo passado. Só não tendo alma e sentimento alguém pode permanecer insensível após um triste domingo de verão, como o que vivenciei!
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